Reinações Múltiplas: HURT
ATENÇÃO: Este blog é pessoal e não profissional

HURT




Seems like it was yesterday when I saw your face
You told me how proud you were, but I walked away
If only I knew what I know today, ooh ooh
Parece que foi ontem quando vi seu rosto
Você me disse o quanto estava orgulhoso, mas eu fui embora
Se apenas eu soubesse o que sei hoje


Não foi difícil de adivinhar quem era. Ela sempre enviava as mensagens lotadas de declarações, com coraçõezinhos e beijos. Deixava cartas em minha mesa e mandava presentes nas datas comemorativas, isso quando não entregava pessoalmente.
Nunca dei a minima pra Lenah , ela não me atraia. Era uma boa amiga, isso inegavelmente. Esteve comigo, sempre. Durante nossa adolescencia, era a primeira pessoa em quem eu pensava para arrastar a carteira e sentar ao lado, para fazer provas. Além de ganhar sempre algum chocolate, um CD ou livro dela, se bem que os livros eu deixava para minha irmã ler. Aliás, minha irmã, Cassie, sempre me dizia que eu era um bruto, sem escrúpulos, que usava a pobre da garota. Eu nunca dei a mínima para minha irmã também, então não me importei com nada do que dizia.
A verdade é que um cara deve se preocupar consigo mesmo e com o que vai ganhar com quem se relaciona. Em uma amizade, por exemplo, eu precisava ganhar confiança, alguma coisa boa em troca, como amigos com carro e contatos para os fins de semana, outros mais de boteco, para zoar na rua e alguns que me estimavam, para eu contar meus podres. Lenah era uma ótima amiga para estar em todos esses momentos, eu podia beber com ela, levar ela em baladas e ferver muito ou apenas sentar e conversar.
Já para relacionamentos sexuais, por exemplo, eram necessários mais do que boa vontade com mulheres. Elas precisavam ser comestíveis, gostosas, interessantes e muito , digamos assim, dadas. Esses eram meus pré-requisitos e me sentia bem com eles. Vivia rodeado de mulheres, sem me preocupar, nem um milímetro, com o que pensavam de mim.
Lenah nunca me cobrou nada, sempre aceitou o que eu dava. E eu dava muito, por sinal. Afinal, não era legal um cara como eu, conhecido e cheio de contatos, ser visto tantas vezes com a mesma garota feia, desengonçada e cheia de babaquices românticas, mas é claro que nunca disse nada para Lenah , ela era sentimental demais pra ouvir isso. Pelo menos nos primeiros anos, depois eu fui bem direto.

Nossa amizade veio de contatos no colégio, começamos a conversar em um dia ruim para mim. Eu havia perdido meu esquilo de estimação e estava, realmente, muito triste. Lenah se aproximou e perguntou se eu queria um biscoito. Ela sorria, com o óculos redondo nos olhos e com aquele jeito de "tem corações girando sobre minha cabeça". Até onde eu sei, ela levou dois anos para se aproximar de mim e oferecer um biscoito, ela tinha me contado isso em uma das cartinhas (e eu ri por meio hora, me debruçando e peidando de tão engraçado que achei aquela basbaquice).
As conversas com Lenah começaram a aumentar quando descobri que ela existia e que tirava ótimas notas. Lenah se encantava tanto em me ter ao lado dela que quase chorava ao me ver perguntar se podia sentar ao seu lado, mesmo eu já empurrando a carteira de encontro a dela. As respostas eram sempre um "sim", seguido de um sorriso gigante e uma pergunta qualquer, quase sempre bem idiota, do tipo "quer uma bala?". Eu não gostava de ser visto com ela, mas minha mãe adorou as notas de trabalho em grupo e até disse que eu havia nascido pra trabalhar em grupo e não sozinho.
Bem, eu não consegui segurar a alegria de minha mãe quando soube com quem eu fazia os trabalhos e, logo, Lenah estava sendo convidada por meus pais, diretamente com os pais dela, para passar o fim de semana em minha casa. Assim, segundo meus amabilíssimos criadores humanos, eu teria contato com ela e minha irmã também, ganhando um pouco mais de boas companhias.
Cassie adorou Lenah no mesmo instante e eu, bem, não queria que ninguém soubesse que ela andava por lá. Nessa época tínhamos uns 12 ou 13 anos. Com as visitas de Lenah a minha casa, tive que retribuir as gentilezas e nossas famílias fizeram uma amizade bem maior do que a que tinham. Passamos alguns bons Natais juntos, na verdade.

I would hold you in my arms
I would take the pain away
Thank you for all you've done
Forgive all your mistakes
There's nothing I wouldn't do
To hear your voice again
Sometimes I wanna call you
But I know you won't be there
Eu te seguraria em meus braços
Eu afastaria toda a dor
Agradeceria por tudo que você fez
Perdoaria todos os teus erros
Não há nada que eu não faria
Para ouvir sua voz de novo
Às vezes eu quero te ligar
Mas eu sei que você não estará lá

Lenah só teve coragem de me contar que era apaixonada por mim, coisa que eu nunca, jamais na vida, teria notado sozinho, quando minha irmã Cassie brigou comigo. Lenahdocument.write(Lenah) , por sua vez, chorava cada vez mais e ficava vermelha, quase roxa de tanta vergonha.

Descobri alguns anos depois que aquela cena, dela chorando e dizendo que me amava, tinha sido fruto da primeira TPM de sua vida, me senti idiotamente orgulhoso. É meio chato ter amigas assim tão próximas, como a Lenah , porque sabemos de coisas que os outros caras não tem muito acesso, afinal, com uma amiga gata - do tipo gostosa mesmo - sempre tem uma segunda intenção (e a amizade não dura), mas com gente como a Lenah , bem,com gente como ela as intimidades e o dia a dia ficam mais evidentes e se aprende muito mais.

Eu comecei a aceitar que Lenah era parte de minha roda de amigos (sendo eu, ela e a Cassie o circulo central), quando fiz 16 anos e ela 15.
Os caras viviam comentando alguma coisa aqui e ali de Lenah e eu comecei a reparar que, realmente a bunda dela era bem... humm... interessante e que os olhos... na verdade os olhos eram os mais incríveis que eu já tinha visto, mesmo quando ela estava com os óculos. Era legal perceber que apenas eu via os olhos de Lenah sem os óculos, quer dizer, eu e Cassie, mas ela nem ligava. Não que eu ligasse, na verdade eu sabia que Lenah era gamada por mim e caidinha na minha. Ela nunca deixou de assumir isso e com o tempo os presentes e as declarações chegaram.
A primeira carta ela entregou pessoalmente.

Foi em uma aula de história. Todos conversavam sobre um trabalho e nós estávamos lado a lado, com os livros dela abertos e com meu caderno. Eu sempre copiava o que ela dizia, pelo menos a letra do trabalho era minha, então não poderiam reclamar, já que me esforçava o máximo para escrever o que ela ditava, daquele jeito todo rápido e exato. Lenah tirou algo da bolsa e falou que naquele dia ela mesma poderia fazer a tarefa e entregar na outra aula. Estranhei, porque Lenah pegava no meu pé o tempo todo para que eu estudasse, mas continuei numa boa, querendo saber por que.
Ela explicou que entregaria algo especial e que precisava da minha promessa de que não riria dela. Eu comecei a rir, porque é inevitável deixar de rir quando te pedem para não rir, e disse que aceitava. Eu estava curioso. Lenah pediu para que eu fechasse os olhos, mas ela estava pirando na batata quando pediu isso, porque sabia que eu jamais fecharia os olhos e esperaria uma surpresa, isso era muito bicha.
Então, Lenah virou os olhos, abriu um meio sorriso, que me fez concentrar em sua covinha, que eu adorava, mesmo intuitivamente, e me entregou a carta. Não havia nada demais, na verdade não havia nada que as outras cartas que eu recebi, das meninas do colégio, não tivessem. Me parecia bem normal, mas ela devia estar esperando uma reação diferente da que eu tive, porque ficou dois dias sem falar comigo.

Ooh, I'm sorry for blaming you
For everything I just couldn't do
And I've hurt myself by hurting you
Ohh, me desculpe por te culpar
Por tudo que eu não pude fazer
E eu feri a mim mesmo ao ferir você


Procurei Lenah e expliquei que ela era minha melhor amiga, que eu considerava ela tanto quanto minha irmã, que sabia o quanto ela gostava de mim, mas que não poderia dar esperanças. Ela baixou a cabeça e ia começar a chorar, quando não resisti ver minha irmãzinha número 2, tão triste e ergui seu rosto, dizendo que mesmo assim eu adoraria receber suas declarações e cartas, porque de todas ela era a melhor.
Claro que funcionou. Lenah não era rancorosa e adorava um bom mimo. Ela e todas as outras mulheres do mundo.
Fomos crescendo dividindo momentos. Minha primeira namorada não significou nada para ela, porque nem mesmo conversavam. A segunda ela fez questão de me dizer que era vadia demais e eu dei de ombros, claro que Lenah tinha razão, eu fui traído.
Bem, os namoros passavam e ela continuava sozinha. Devia ter 17 quando recebeu em casa seu primeiro namorado. Eu não sei porque, mas fiquei morto de raiva do cara. Não que parecesse uma pessoa ruim, na verdade eu simplesmente nem ligava para esse tipo de coisas porque Lenah tinha bom gosto, não era a toa que ela me amava. De qualquer modo, pensei que fosse a mesma sensação que tive com minha irmã quando levou o Fletcher lá em casa. Como o Fletcher tinha a grande vantagem de ser super camarada, nós nos demos bem e era isso o que eu pretendia que rolasse com o cara que a Lenah apresentou a todos na Páscoa. Mas não foi bem assim.

Fiquei encanado um mês com o sujeito, procurei Lenah , que já não passava tanto tempo comigo, com Cassie e com Fletcher, mas sim com a aberração ambulante e perguntei para ela se o que sentia pelo cara era mesmo sério. Eu nunca vou entender as mulheres, que droga. O que, me diga O QUE, eu fiz de errado? Perguntei isso pra ela e Lenah começou a chorar me chamando de cretino. Eu lembro que as palavras latejaram em mim, mas mesmo assim me senti na razão, poxa. Ela era minha irmã, eu não confiava no cara e... bem, eu queria ver ela bem.
Como não suportávamos ficar muito tempo longe um do outro, acabei pedindo desculpas com uma caixa de chocolates na aula de Física. Lenah sorriu e me abraçou dizendo que adorou me ver com ciúmes e que já tinha terminado com o tal cara lá. Eu fiquei puto em ouvir aquilo, afinal não estava com ciúmes da Lenah , era só falta de confiança no cara mesmo. Bem, deixei pra lá, não queria ficar mais tempo sem falar com ela. Não por nada, mas teria prova em dupla naquela semana, então...
Lenah teve uma porção de namorados, nunca vi menina pra ser mais namoradeira. Minha irmã nunca terminou definitivamente com Fletcher, eles iam e vinham, e ficavam mais juntos do que separados. Em compensação, Lenah tinha começado a namorar com 17 anos e já tinha passado por 4 caras até os 19. Eu achava demais para uma garota e, na verdade, nenhum dos sujeitinhos eram realmente a cara dela, não combinavam com o senso de humor, nem com nada.
Acho que Lenah percebeu isso, mesmo porque nunca deixou de dizer que, embora namorasse, eu era o único e verdadeiro amor da vida dela. Isso me deixava cheio de mim, mas não ligava. Lenah sabia como funcionavam as coisas. Começamos a sair mais e mais juntos. Ela frequentava minha rodinha de amigos do colégio e trabalho. Não era do tipo de mulher que meus amigos mais se interessassem e vivia cortando quem se aproximava dela.

Lenah gostava das coisas que eu gostava, dava pra sacar que não fazia para me agradar, como minhas antigas namoradas. Ela realmente se sentia bem consigo mesma - ainda que fosse desengonçada e usasse aquele óculos estranho, umas roupas que não realçavam o corpo e que deixavam ela com um visual retrô, mas sério demais. Bem, eu sabia que Lenah tinha um corpo perfeito e muito lindo, sempre que viajávamos para o litoral ela me enchia os olhos com o corpão de sereia, mas é claro que eu não ficava babando na minha irmã número 2.
Em compensação, quando resolvemos ir com o grupinho do trabalho (porque consegui um emprego para ela no escritório em que eu estava) percebi que os caras ficavam loucos com sua presença. Me senti incomodado com a falta de respeito de alguns deles em olhar na cara dura pra bunda da Lenah e comentar do corpo, isso era patético, ela nem era assim tão interessante. Ainda que pegasse um bronze fácil-fácil e ficasse encantadora com os cabelos soltos, sem os óculos... Bem, eu era um quase-irmão dela e não deixei que ficassem falando coisas perto de mim.
Não acho que tenha resolvido muito porque os caras paqueravam Lenah e, pior, ela só sorria. Sorria, acredita? Ao invés de cortar os idiotas ela ficava lá, de sorrisinhos. Resolvi ir embora do acampamento mais cedo e levei Lenah comigo, não deixaria a carne para os abutres.
Ela ficava me aporriando na viagem, dizendo que não havia motivo pra eu ficar com bico e ir embora da praia só porque ela e centenas de garotas estavam usando biquínis. Não dei a mínima para o que ela dizia. Resolvi ficar na minha ou a gente brigaria e quando eu brigava com a Lenah , ela sempre saia chorando, ou me fazia ter um colapso de nervos e sair batendo portas. Não seria legal um desses showzinhos na estrada.

Lenah continuava me mimando e se declarando, mesmo com 21 anos. Claro que quando eu namorava com alguma garota ela se distanciava um pouco e parava de falar qualquer coisa assim, assumindo a postura de irmã guarda-caça. As pessoas riam dela pelas costas no trabalho. Não que eu estivesse preocupado em saber que todos sabiam que ela era apaixonada por mim, mas as evidências me incomodavam e eu resolvi não dar tanta atenção como sempre dei para Lenah , deixando ela no vácuo as vezes. Era melhor para a reputação dela, que parecia um cachorrinho atrás de mim.
Nunca imaginei ter nada com Lenah . ela não era meu tipo. Era tão... sem sal.
Os namorados que ela teve e os caras com quem saia eram do tipo ratos de laboratório que não pegavam mulher nenhuma e faziam de tudo pra ela, com medo de perder. Eu via que Lenah se entediava com eles.

Some days I feel broke inside, but I wouldn't admit
Sometimes I just wanna hide, cuz it's you I miss
And it's so hard to say goodbye when comes to this, ooh yeah
Alguns dias eu me sinto destruída por dentro, mas não vou admitir
Às vezes, eu apenas quero esconder, porque é de você que eu sinto falta
E é tão difícil dizer adeus quando chega a hora

Eu e Tom Fletcher, meu cunhado, resolvemos montar uma banda e chamamos dois caras que pareciam ser muito bons. Um deles, Daniel, era locão e fazia milhões de maluquices nos encontros e ensaios, contagiando a galera. A gente precisava daquele tipo de energia e achamos legal. O outro, Harry Judd, era um dos meus amigos do trabalho, que vivia perguntando de Lenah pra mim, e isso não me agradava, mas como ele era muito bom baterista e um cara gente boa, foi ele mesmo.
Não lembro exatamente quando e como aconteceu, mas Lenah sempre assistia aos ensaios e uma das vezes resolveu dar uma chance ao Harry, saindo com ele depois do encontro da banda ou coisa assim. Só sei que em um belo dia, a senhorita chegou toda empolgada dizendo que estava namorando, me deu um abraço e falou que estava feliz demais. Eu perguntei com quem e como, não conseguia entender, ela tinha me entregue uma caixa de chocolates três dias antes com um bilhetinho dizendo que me amava e agora dizia que estava namorando? Fiquei meio estranho com a notícia.
Lenah foi bem calma ao dizer que Harry a entendia e sabia que ela havia se apaixonado muito criança por mim e que o contato de proximidade a fazia pensar que ainda me amava, mas que (sim, eu tive que ouvir isso) agora Harry mostraria para ela o que uma paixão de verdade significava. Lenah me deixou pasmo com o que me disse. Tudo bem que contávamos de tudo um para o outro, mas nunca me senti bem pra ouvir sobre homens, nem sobre Tom, quando Cassie falava alguma coisa.
Lenah não pareceu se importar, disse que entendia muito bem que meu sentimento era de irmão e que ela aprenderia a cultivar a mesma coisa, com ajuda de Harry, que era um príncipe e fazia muito bem a ela. Como, segundo ela, tinha certeza de que eu sempre a apoiaria e que eu não me importaria em vê-la com alguém que nós dois conhecíamos e que era de confiança, resolveu conversar comigo. A ideia da maluca era continuar me tratando como sempre, para que o novo namorado se acostumasse com o valor de irmão que eu tinha na vida dela, há tantos anos.

Por um momento eu pensei que aquilo era tão natural: uma guria que pensava gostar de um cara por ele estar sempre por perto, agora pretendia deixar claro que era só uma amizade de irmãos e levar uma vida bacana com o novo namorado. Mas essa ideia idiota durou apenas um segundo. Lenah não podia, simplesmente, abandonar um sentimento se jogando em outro, embora eu sempre tenha aconselhado ela a fazer isso.
E foi o que me jogou na cara: Você sempre disse que eu deveria crescer e encontrar alguém pra curar minha fossa Poynter. Era verdade, eu não tinha o menor cuidado com as palavras, afinal, era minha quase-irmã, eu podia arrotar em frente a ela sem ter que me desculpar (e era o que eu fazia mesmo). Lenah era tão íntima minha, conhecia tantas, tantas coisas a meu respeito, sabia tanto de mim. Eu até pensava que não me conhecia tanto quanto ela conhecia a mim.
Deixei que ela fizesse o que queria, naquela noite, eu estava namorando mesmo e não me importava com Lenah estar também.
As semanas passaram, os meses e ela parecia inabalável com Judd. Pensei que seria mais um namoro de 5 semanas, mas não foi. E pior era ver o McFly crescendo, saindo em alguns shows e ela lá, sempre lá, com ele. Não sei porque ficava tão incomodado, mais até do que me sentia com Cassie agarrando Tom. Achei que era pelo costume de ver os dois juntos desde sempre, enquanto Lenah , que vivia me paparicando, agora fazia isso só de vez em quando.
Harry não tinha ciúmes de mim, ao contrário, quando Lenah resolvia me presentear e me fazer uma surpresa ou escrever uma carta (agora eram declarações de amizade) ele sorria e parecia aceitar sem problemas. Isso me fazia sentir uma ponta de ódio de Harry, por que ele simplesmente não se sentia inseguro?

Ok, a Lenah era bem sem graça, ninguém olharia ela e... Eu estava começando a ter certeza de que me enganava. Muita certeza. Olhei para o cartão em minha mesa, com uma barra de chocolate e milhares de corações: Você é muito mais que incrível maninho. Meu loirinho lindo, te amo.
Meu sorriso ficou estampado como um trouxa quando vi aquele presente que parecia tão habitual e, ao mesmo tempo, tão novo pra mim. Era novo eu pensar que ela não era uma mulher nada desinteressante, ao contrário, Lenah era muito mais que interessante.
Já não usava óculos, seus olhos agora usavam lentes que faziam aquele tom de verde esmeralda brilhar tanto que me deixavam sem jeito de olhar para ela. O estilo que combinava com seu corpo (e eu nunca havia percebido) a deixava mais mulher, mais intensa. Quando chegava perto de um homem, ele tinha receio de olhá-la, tamanha a segurança e liderança em sua aparência.
Lenah tinha um perfume inconfundível e um sorriso... Eu não conseguia saber se era seu sorriso ou o Sol a estrela mais brilhante, mas tinha uma leve desconfiança de que ela brilhava muito mais. Suas mãos me chamavam atenção. A mesa ao lado da minha com os objetos que denunciavam uma adolescência e infância não muito distantes, faziam parte do cenário de onde suas mãos teclavam sem parar, digitando tantos arquivos, antes de enviá-los e reenviá-los e ficar lindamente descomposta, como era anos atrás, com tanto trabalho no escritório.
Seu rosto tinha uma feição tão angelical e ao mesmo tempo era como o de uma rainha-guerreira. Lenah me fazia sentir estranho, como se minha pernas não estivessem no corpo. Sua boca era tão bem desenhada e seus cabelos pareciam cachoeiras em ondas, caindo castanhos-negros pelos ombros.

Would you tell me I was wrong?
Would you help me understand?
Are you looking down upon me?
Are you proud of who I am?
There's nothing I wouldn't do
To have just one more chance
To look into your eyes
And see you are looking back
Você me diria que eu estava errada?
Você me ajudaria a compreender?
Você está olhando para baixo em cima de mim?
Você está orgulhoso de quem eu sou?
Não há nada que eu não faria
Para ter apenas mais uma chance
De olhar em seus olhos
E ver você olhar de volta

Lenah havia deixado um chocolate e um bilhetinho para mim e eu me sentia apaixonado por ter notado que ela existia. Mas... aquela paixão repentina era uma das muitas loucuras que eu tinha em mim, não poderia simplesmente acreditar que, em uma dia qualquer, despertei e vi Lenah com outros olhos. Lenah sempre esteve ali e eu nunca havia reparado.
Naquela manhã eu fiquei mais feliz do que habitualmente ao receber um presente. Harry sentava na outra sala, pelo jeito Lenah ainda não havia voltado da cafeteria e eu poderia procurá-lo e exibir meu presente, o que me deu uma satisfação. Eu mostraria que ela ainda era minha, de alguma maneira.
Quando pensei nisso meu estômago embrulhou e fiquei nervoso. Nunca havia pensado em Lenah como minha. Eu pensei que estava mesmo ficando louco, afinal eu tinha namorada e ela era comprometida com um dos caras mais camaradas que eu já havia conhecido na vida. O baterista da banda em que eu tocava baixo. Porra, era revoltante, mas, ainda assim, não me faria desistir de ter o gostinho de sentir que eu ainda significava alguma coisa para ela.
Fui a sala de Harry com o cartão e o chocolate, sorrindo, pensando na piada que eu faria, tentando alfinetá-lo sem que ele percebesse e parei, boquiaberto, em frente a porta da sala em que Harry tinha Lenah sentada em seu colo. Os dois seguravam um copo de cappuccino e riam abraçados, comendo algumas das empadas favoritas de Lenah . Reparei que não havia nada de feminino naquilo e que, certamente, o café havia sido ideia de Harry, para agradá-la.
Senti uma lágrima escorrer e percebi que nunca, jamais, havia tentado, de coração, agradar a mulher que passou mais de sete anos declarando aos sete mares que me amava. Mas, aonde estava esse amor agora? Eu teria ou não direito de querê-lo para mim? Eu que havia jogado fora cada um de seus toques, de suas palavras, agora queria o que não me pertencia.
Lenah notou minha presença, ela sempre me notava. Sempre sabia mais de mim do que eu mesmo. Quando viu meu rosto olhou com pesar, soltando-se de Harry com a delicadeza, que um dia esteve a minha disposição, e indo até mim.

Eu olhava fixamente em seus olhos e vi quando ela sentiu a flecha que saia de mim atingir o peito dela em cheio. Era o olhar que ela havia esperado a vida inteira para receber. Eu a amava e isso era nítido. Mesmo que tivesse demorado tantos e tantos anos, eu sabia agora, com a precisão de um homem: eu era louco por aquela mulher.
Lenah deteve o passo ao ver isso desenhado, cravado em minha alma, mas logo seguiu em minha direção, segurando minha mão e beijando-a, com delicadeza. Perguntou se eu estava bem, enxugou a lágrima de meu rosto e sorriu. Eu a abracei com toda a força que eu tinha, afundando meu rosto em seus cabelos, sentindo meu corpo tremer e o dela me apoiar, pedindo que eu ficasse calmo.
Respirei devagar, tentando me conter e afastei os nossos corpos. Lenah segurava meu rosto, com as mãos que eu amava. Beijei as mãos dela e segurei com força. Lenah parecia muito constrangida e olhou para trás, pedindo licença para Harry, porque precisaria conversar comigo. Ele, inabalável e confiante, sorriu desmanchando o cenho de preocupação comigo e disse que ela poderia demorar o tempo que precisasse. Harry era o filho de nosso chefe e nosso gerente.
Lenah puxou minha mão e me levou até a sala de reuniões, fechando a porta. Lá ninguém nos ouviria ou incomodaria, eu sabia disso. Sentei-me sem saber o que eu estava fazendo, ou mesmo o que eu diria para ela.
Lenah sentou ao meu lado e tocou meu braço com suavidade, me fazendo fechar os olhos e me concentrar em seu perfume perfeito. Suspirei e quando abri os olhos, o semblante dela continuava preocupado.
-Me diga o que aconteceu Dougie. - eu fiquei paralisado olhando para seus lindíssimos olhos verdes, esperando acordar em um tempo em que ela e eu éramos crianças, fazendo dever na escola e correndo no pátio, pensando ser muito mais espertos com 13 anos, do que adultos com 50. Tentei voltar ao tempo em que eu lia as poesias que aquela deusa escrevia para mim, jurando que jamais estaria distante e que confiava em mim tanto quanto um cego confia seu caminho a um cão guia. Essas palavras vinham em minha mente naquele instante, me perdendo nos lindos olhos e faziam ecoar uma dor gigantesca em pensar que eu havia perdido tudo isso porque não aceitei quem ela era. Porque tive vergonha do que significaria. Se ela soubesse que sempre foi tudo o que eu queria ter.

Por que um homem leva tanto tempo para saber o valor de uma mulher?
Toquei no rosto de Lenah e ela fechou os olhos.
-Eu... - demorei um tempo para ter certeza do que diria e ela permaneceu em espera, com os olhos levemente fechados, sentindo minha mão tocar seu rosto. Percebi que nunca havia feito isso. Tocar Lenah . Não em um abraço ou uma brincadeira, não no dia a dia, mas assim. Desse jeito que faz sentir uma espécie de formigamento no corpo, como se, de repente, eu fosse voar e passear batendo asas pelo céu. - descobri que amo você.
Senti a tenção de Lenah , que esperava ouvir exatamente isso. Exatamente assim, pois sabia de todos os meus passos, ainda que eu não tivesse dado nenhum. Nesse instante vi uma lágrima rolar em seu rosto límpido e macio. Sua feição se rendia para um choro e ela respirou firmemente para conter a emoção que sentia. Eu não tirei a mãos de seu rosto, mas ela sim.
Depositou minha mão em meu colo e abriu os olhos. Uma energia sem fim me infiltrou ao ser cortado pela lança que saia dali.
-É tarde demais Dougie. - ela falou tentando manter a calma, mas as lágrimas não se contiveram. Tentei trazê-la para mim, abraçando-a, mas Lenah se levantou e apoiou o corpo nos braços da cadeira, olhando para o chão e deixando as lágrimas escorrerem sem fim.

Me coloquei a seu lado e a abracei. Lenah me segurou com toda sua força e eu fiz o mesmo. Não queria que fosse assim.
-Me desculpe Lenah , me desculpe. - ela soluçava, me ouvindo. - Me desculpe por te fazer sofrer, me desculpe por ter dito tantas vezes que você não significava nada, que não passávamos de amigos. Me desculpe por humilhar você quando te escondia do olhar de todos, quando não queria que te vissem ao meu lado, quando olhava para você com indiferença. - ela chorava mais e mais e eu deixava minhas lágrimas caírem também, agora segurando-a em frente ao peito. Eu sabia muito bem quem eu era, o que eu significava, o que eu tinha feito a ela. Me doía pensar que boa parte de minha vida a felicidade bateu em minha porta e eu a escorracei, como se fosse um cachorro com sarna.
Deus, onde esteve minha sanidade? Onde esteve esse lado que só agora posso ver? Por que eu não pude aceitar seu amor quando ele não era de outra pessoa? Por quê?
Soltei Lenah e enxuguei seu rosto, com um lenço que estava em meu bolso. Ela se recuperou, sentando-se.

-Não entendo Poynter, não entendo. - ela estava encolhida na cadeira, com as mãos mexendo no lenço, freneticamente.
-Eu não sei como foi Lenah . Me dei conta de que você é...
-Não diga mais nada Dougie, por favor. - me calei e fiquei de joelhos a seu lado, segurando suas mãos. Ela me olhou com incerteza, ainda soluçando pelo choro.
-Eu ainda tenho alguma chance? Por menor que seja, por mais remota, de me desculpar e te fazer feliz?- Lenah me encarou com rancor e pesar. Um olhar que nunca havia ganho dela e que me fez sentir o coração ser jogado a uma trituradora.
-Eu já sou feliz Dougie. Sou muito feliz.
-Lenah , eu...
-Harry é o homem de minha vida agora Dougie e nada do que você possa fazer vai mudar isso.
-Preciso tentar. Só quero a sua autorização.

-Você namora Dougie, eu namoro. Havia regras, lembra? - lembrei que ela só demonstrava seu carinho quando eu ou ela estávamos solteiros. Nunca quando tínhamos alguém. Lenah respeitou todos os meus relacionamentos e, quando eu mantinha algum, o máximo que fazia era me visitar e passar algum tempo conversando, sentada no chão de meu quarto, ouvindo eu dedilhar no violão e compor alguma música... que nunca era para ela. Minhas lembranças me fazia ficar pior a cada momento.
-Preciso quebrar as regras. Não somos mais crianças, não posso te perder.
-Você já me perdeu Poynter. Também não sou mais criança e o único sentimento que me permito nutrir por você é o que recorda cada momento feliz de nossa amizade.
-Não quero mais ser apenas seu amigo, Lenah .
-Então teremos que cortar esse laço tão intenso e verdadeiro, que nunca foi destruído, nem mesmo por sua indiferença. - ela conseguiu arrancar um pouco mais do que restava da minha dignidade.

-Eu nunca quis te machucar.
-Às vezes as crianças brincam sem intenção de se machucar, mas acabam no hospital com braços e pernas quebrados.
-Você está inteira Lenah , você é forte, teve coragem! - eu segurei os braços dela e a chacoalhei com o máximo de cuidado que pude ter, ainda assim, senti uma caixa de cristais prestes a quebrar em minhas mãos. Soltei Lenah e toquei seu rosto com intensidade, trazendo a cabeça para perto da minha e recostando nossas testas. Ela me olhava, tremendo e eu sentia medo de machucá-la por apenas estar tão próximo. - Preciso de você.

Lenah fechou os olhos com força.
-Não posso te oferecer mais que meu amor de irmã.
-Não quero esse amor. - eu a soltei furioso. - Não quero! - gritei comigo mesmo e me vi descontrolado.
-Então não terá nada, eu já disse. - ela estava furiosa também, enxugou as lágrimas e se preparava para sair da sala, quando segurei seu braço com força e trouxe seu corpo para junto do meu, dando-lhe um beijo forte, quente e completo.
Meu coração disparou e senti a pulsação dela ir a mil. Estrelas e uma música de contos de fadas pareciam estar ao redor, com uma sensação de flutuar e de alcançar o céu com aqueles lábios.
A boca passeava na minha, com fúria e logo nos acalmamos, intensificando, ainda mais, o martírio pelo qual passávamos. Envolvi Lenah em meus braços e recebi os dela como recompensa segurando forte em mim. Minha felicidade era tanta e minha necessidade ainda maior. Eu precisava dela há tanto tempo e não havia coragem de ceder. Quantas lágrimas ela derramou por mim? Quantas noites sem dormir? Quanto tempo para pensar em tudo o que eu era? Eu precisava retribuir e fiz isso naquele beijo.

If I had just one more day
I would tell you how much that I missed you since you went away
Ooh ooh, It's dangerous
It's so out of line to try and turn back time
Se eu tivesse apenas mais um dia
Eu lhe diria o quanto sinto sua falta desde que você se foi,
Ooh-ooh é perigoso
É tão difícil tentar e voltar no tempo

Não consegui soltá-la e separei os lábios para respirarmos, enquanto meu rosto lhe dava um intenso beijo de esquimó, buscando sua boca em um selinho. Lenah beijou meu pescoço e então meu corpo chamou pelo dela, pulsando como um louco. Percebi que estávamos próximos o suficiente para que ela sentisse, então beijei seu rosto e mordi o nlóbulo de sua orelha. Lenah se agarrava a mim como uma gata e eu a recostei na parede, sem noção de tempo ou espaço.
Beijei-a até que meu corpo conseguisse relaxar. Não poderia ser assim, com ela precisava e seria especial.
Vi o corpo de Lenah soltar um gemido quando o toquei com leveza, passeando minhas mãos por ela, de cima a baixo, e imprensando-a na parede, como se fosse possível deixar os corpos mais juntos. Minha respiração e a dela ofegavam e me percebi não conseguindo conter a vontade de beijá-la.
Lenah nos separou com a sua delicadeza, colocando as mãos em meu rosto.
Nunca havia visto ela assim, tão de perto, tão próxima. Deus, que sabor eu sentia ao beijá-la e que toque delicioso era aquele? Nunca havia beijado assim, nunca havia entregado minha alma em um beijo.

Nossos rostos permaneceram próximos.
-Eu te amo demais. - ela apenas ouviu. Eu não tive o prazer de escutar aquelas palavras dos lábios dela, pois havia um preço a ser pago pela dor que a causei.
-Preciso voltar ao trabalho. - Fiquei olhando para ela, que estava quente em meus braços.
-O que vai acontecer com a gente? - Lenah esperou um longo tempo, olhando para mim.
-Nada.

A mulher mais linda do mundo saiu pela porta, completamente desarrumada e se trancou no banheiro feminino, me deixando em um vazio gigantesco.
Lenah contou tudo a Harry e eles resolveram ficar um tempo sem se ver para que ela soubesse o que fazer. Algo me dizia que ela já sabia.
Os ensaios da banda continuavam normais, mas sem a presença dela. Lenah pediu demissão em uma quinta-feira chuvosa. Eu já não conseguia conversar com ela. Não atendia os telefonemas, não respondia nem os "bom-dias". Os presentes que eu mandava voltavam e seu eu tentava segurá-la a força ou obrigá-la a me ouvir, era como se não tivesse voz, simplesmente não respondia e fingia não me ver.
Lenah não conversava com Cassie e algumas semana depois de parar de trabalhar na empresa, soube, por sua mãe, que ela havia viajado para outro país, onde faria intercambio.
Ela nunca voltou, mas eu não hesitei em procurá-la. A banda fez sucesso em tantos lugares e, cada uma das letras de amor, eu dedicava a ela, mesmo sem descobrir aonde estava. Lenah passava pelos lugares sem deixar rastros que a fixassem em qualquer parte. Eu a buscava sem receber mais que uma ou outra confirmação de que havia partido.

I'm sorry for blaming you
For everything I just couldn't do
And I've hurt myself... By hurting you
Ohh, me desculpe por te culpar
Por tudo que eu não pude fazer
E eu feri a mim mesmo por ferir você


Dia 29 de novembro, quando completei 30 anos, recebi um embrulho do correio. Havia uma foto de Lenah com uma garotinha de cabelos castanho-escuro e olhos redondinhos, muito verdes. Elas sorriam, lindas. Atrás da foto havia um pequeno texto:
Angela Cassie Muller, minha filha, era apaixonada pelo baixista da banda McFly. Ela faleceu em um terremoto no Chile, país em que morávamos. O sonho de Angela era um autógrafo seu, senhor Poynter. Antes que ela adormecesse, na noite da tragédia, sua mãe lhe mostrou um antigo caderno repleto de anotações de Douglas Poynter, o maior ídolo delas. Saí de casa para esfriar a cabeça, não era fácil ver minha mulher apaixonada, olhando as fotos e os recados do antigo colega de escola. Deixei elas dormindo, abraçadas e felizes na noite em que faleceram. Espero que o senhor note a coincidência na data. 29 de novembro.

Naquele momento, meu coração parou por uma fração de segundos, escorreram de mim as lágrimas mais cortantes e desesperadas de toda minha existência. Fechei os olhos com uma dor que me torturava, abracei meu corpo e supliquei a Deus que me arrancasse a vida.



FIM


N/A: Eu nunca me senti mais feliz em homenagear alguém.
Christina Maria Aguilera, há 8 anos, eu te amo.
F.

Feliz Aniversário minha DIVA

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