Reinações Múltiplas: Mudando de ares
ATENÇÃO: Este blog é pessoal e não profissional

Mudando de ares

Era uma vez uma garota sonhadora com vinte e tantos anos que adorava ser dramática.
Ela não reconhecia a força que possuía, a menos que fosse necessário.
Tinha muitas certezas, muitas dúvidas e um monte de enganos. Fazia boas escolhas, também.
Mas raramente optava por si mesma.

Se dividia demais e se multiplicava bastante. Mas tudo que é demais, tudo que está em excesso, faz mal.
Então ela tirou um tempo para viver longe e sozinha. E descobriu que amava muito estar com ela, apenas consigo mesma.

Aproveitou cada manhã, como se vivesse um sonho.
E cada vez que abria a janela e via o sol, ouvia os pássaros e sentia a vida que a movimentava e que era movimentada por ela, perdia a fala.

Um dia a menina voltou para a gaiola, como um passarinho que aprende a voar e logo é preso.
E seu coração saiu desesperado em busca de porquês.
Ela pensou: é preciso esperar.
E um amigo espiritual lhe perguntou: esperar, o quê?
Foi quando ela respondeu a si mesma: o tempo de usar aquilo que aprendi.

E o tempo chegou.
Outros ares chegaram para a moça.
Terras distantes, onde a vida parece um filme. Um local que ela ouviu falar, sabe que existe, mas que nunca viveu. Não nessa vida.
A moça tem algum receio. Um pouco de medo do desconhecido, mas em breve isso passa.

A moça também está absolutamente decidida a ir. Porque não sente que deixa nada. Leva consigo a sua casa, o seu corpo, a sua mente.
Quem fica são os outros... e esses outros no fundo também vão: no coração e na memória.

Vai com ela a melhor amiga.
A família, com mãe chorona e pai empolgado.
Com irmã feliz e irmã emburrada.
Com sobrinho encantado e cunhado surpreso.
Vai com ela o moço que ela chama de menino.
 Não porque estivesse junto, mas porque estava por perto.
Vai com ela a sala de aula lotada de sonhos dos outros.
Vai com ela a valsa que não dançou.
O vinho que não bebeu.
A festa em que não foi convidada.
Vai com ela sua história. Com o que ela fez e com o que ela quis fazer.
Vai com ela a lembrança dos bons momentos.
O aprendizado.
Vai com ela uma caixa de recordações chamada coração.


E, como sempre faz, a moça fecha os olhos em prece e pede a Deus que aqueles que a guardam sigam acompanhando-a. E que aqueles que chegarem em seu caminho, em seu destino, em seu ponto de desembarque, sejam tão bons e amáveis quanto os ciganos de pés leves e sorriso no rosto, dançando com a alegria da vida, despertando com lindos amanheceres.

Ela vai para brincar de Cinderela. Sem conto de fadas. Sem bruxa má. Somente com o que há de real. Com a energia de um documentário: simples, objetivo, real.

Ela vai. E leva tudo com ela. Pra não deixar nada incompleto, nada para trás.
Nem os sonhos, nem a esperança.




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Que a energia cigana e feliz que me envolve possa chegar até aqueles que me leem.
Optchá!