Reinações Múltiplas: Capítulo 4 – Menina má
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Capítulo 4 – Menina má


Cabal estava preparado. Tinha os amigos ao redor e uma bebida forte na mão. Olhava para as pessoas queridas, aquelas que estavam por perto sempre, e que deixavam-no muito mais seguro na ocasião. Talvez fosse o senso de mostrar quem ele realmente era, que o fazia sentir-se ainda mais corajoso, ou simplesmente a presença de seu time PRO.

Quando chegou à boate percebeu que a noite seria louca. Seus olhos brilharam com a magia do lugar e aproximou-se cumprimentando Chorão, que disse, em uma radiante alegria, não perder aquela casa caindo por nada no mundo. Cabal riu das palavras do amigo, e percebeu que havia muito mais gente importante para ele do que imaginava, ainda que alguns, como Thaíde, que estava viajando, não participassem da ocasião.

Ele olhava os rostos conhecidos e desconhecidos e as histórias passavam em sua mente, relembrando momentos e conquistas. Chegar até ali não tinha sido fácil, enfrentou muito riso, muita fala, muito preconceito... Talvez as lágrimas saíssem facilmente naquele momento, mas ele não deixaria as recordações lhe abalarem, ao contrário, riria junto com os amigos, beijaria muitas mulheres e faria seu melhor show. Porque quem ri por último, ele sabia, ri melhor.

Quando Carol chegou, desacompanhada, em meio aquela multidão, resolveu escolher um lugar em que ele possivelmente a notasse. Precisava ser na pista, claro, mas também em um lugar estratégico para se aproximar de C4 sem muita dificuldade. Quando ela ouviu a música tocando, não conseguiu controlar as emoções, logo estava dançando desesperadamente e mal lembrava dos planos que tinha confabulado em casa. Havia muita gente ao redor e ela sentia a energia ascendendo, enquanto bebia algumas taças de vinho e o calor subia em seu corpo.

A festa estava apenas começando e o corpo da morena já estava enlouquecido, ela sabia que seria uma noite especial. A primeira cantada que recebeu foi acompanhada por um ‘não’, a segunda, a terceira e a quarta, também, até chegar um cara alto, moreno, forte e muito bonito. Depois de curtir a boca de dois ou três caras, ela estava prestes a se deixar levar por outra batida que começava, quando viu ele, passeando entra as pessoas, cumprimentando, sorrindo, com ar predominantemente encantador, feliz pelo show estar sendo um sucesso. Já eram altas horas da madrugada e os olhos dela ficaram fixos, incontestáveis.

De repente, o mundo parou em sua frente. O que ela ia fazer? Seguir em frente e se arriscar ou voltar atrás, para não se machucar? Há um momento em sua vida em que você terá de escolher entre o que aconteceria e o que acontecerá. Esse momento será mais importante do que as demais escolhas de fazer ou não fazer alguma coisa, pois será o momento decisivo, em que vai acontecer ou não. Carol passava por isso bem naquele instante.

Sem saber para onde ir, ela resolveu dançar. “O que for para ser meu, vai ser”, pensou. E para sua sorte, azar ou destino, era a voz do Daddy Kall dizendo que “ela chegava toda linda, toda patricinha”. Seu corpo não resistiu ao ouvir, querendo realmente dançar, mais do que qualquer coisa. E naquele instante ela era a mais linda das mulheres, ainda que fosse apenas o seu subconsciente orgulhoso lhe dizendo isso, pois era assim que se sentia. Naquele momento, teria a qualquer homem que desejasse.

Mil coisas lhe invadiam a cabeça. Era muito bom estar em um lugar em que não lhe reconheciam, sua fama estava se expandindo depressa e ela mal andava por NY sem fotógrafos, mas o Brasil era diferente. O que, todavia, lhe dava vantagens, pois embora o Brasil não lhe conhecesse, ela conhecia o Brasil.

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“Faz você se apaixonar, garota provoca”

Cabal andava entre as pessoas, gostava de ver de perto tudo aquilo. A noite era dividida nos palcos, havia sua vez e a de seu time, por isso resolveu deixar o camarim uns minutos pra curtir com a galera. Muita mulher bonita, muita gata dando moral, muitos corpos dançando... Ele sabia que havia alguma coisa nova no ar, seu instinto e seu espírito estavam diferentes e, embora talvez fossem os goles de cerveja, ele se sentia muito bem com aquilo.

Olhou para os lados, observador como sempre, algumas pessoas o paravam, cumprimentavam, tiravam fotos. Ele viu mulheres interessantíssimas, mas estava prestes a fazer uma proposta noturna para uma velha amiga, então seria embaçado chegar nas gatas. Sem problemas, naquele momento o importante era a oportunidade de estar na aclamada Pegasus. Olhou para o lado de relance e viu uma morena bastante empolgada,ao som de “Toda Patricinha”, sorriu pensando que o mestre Sabotage tinha toda razão ao dizer que mulheres e hip hop... bem isso não era o momento de filosofar com o Sabota, era momento de admirar aquela mulher suculenta dançando sua música. Parou admirado.

Carol foi para o local em que presumiu que Cabal ficaria durante a festa, lá havia mais pretendentes para a gata, parecia que todos queriam a morena. E ela, realmente, estava deslumbrante. Eram muitas mulheres, mas ela sempre teve um brilho especial. “É o meu sorriso”, pensava, “pessoas gostam de ser bem recebidas, bem vistas”. E, admitia para si mesma que esse pensamento era sinal de nervosismo, já que ela não sabia como chamar atenção de Cabal. Considerava a ideia de conseguir aquela casa de shows, com ingressos tão baratos, uma idiotice sem tamanhos que havia feito. Afinal, agora ficava difícil de se aproximar.

Ele estava do lado de uma garota ruiva, muito bonita, trocou umas palavras, em breve seguiria em frente para conversar com algumas pessoas que o esperavam no camarim, teria uma rápida reunião. Não fosse o mulherão que disparou e parou bem em sua frente, com um rosto todo malicioso, mordendo o canto dos lábios, usando roupa preta deliciosamente colada no corpo e uma blusa prata por cima, fazendo-lhe brilhar ainda mais e deixando-o hipnotizado, talvez ele tivesse seguido adiante. Cabal parecia conhecê-la de algum lugar, mas ficou com receio de comentar e parecer uma cantada ruim.

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E o pior é que ela sabe que é a mais gostosa

-Desculpa, eu posso te pedir um autógrafo? – ela voltou a morder o lábio, balançando o corpo como uma criança e ele ainda estava hipnotizado.

-Claro que sim baby, mas eu não tenho caneta aqui – disse desapontado, batendo as mãos nos bolsos.

-Tudo bem, eu trouxe uma – ela falou levemente empolgada, comemorando e ele riu do jeito de menina. Então Carol tirou do bolso uma caneta e um papel.

-Prevenida moça? Hahaha – o som estava bombando e as vozes saiam em tons altos.

-Eu acho que sim - ela tirou o riso do rosto e investiu no olhar firme e penetrante novamente. Só ela tinha aquele poder, sabia disso. Os lábios dela entreabertos, ele desviou os olhos do papel em sua mão e quando olhou para Carol, entregando o papel e dizendo “está aqui”, com um sorriso despreocupado, se deparou com aquele olhar.

Talvez fossem olhos de cigana obliqua e dissimulada, talvez olhos de ressaca, mas ele não era Machado de Assis, então, em sua definição, os olhos eram lânguidos mesmo. Pediam algo que ele daria com muito prazer, mas aquela noite tinha uma dona, ele já havia decidido isso e não voltaria atrás.

-Se não for – ela esticou a mão para pegar o papel e deu uma pausa na fala, dando ênfase a palavra seguinte – abusar, poderia dar um beijo no seu rosto?

Ele sentiu o corpo todo esquentar, era nítido que ela pretendia seduzi-lo, mas estavam-no esperando e seria um imbecil em deixar alguém que conhecia por uma completa desconhecida, embora a ideia de desvendar aquela desconhecida acabasse de lhe surgir ao olhar a boca, aparentemente macia e, certamente, carnuda, da morena.

-Haha, claro que sim linda. – ele riu sem saber se achava graça ou se estava nervoso. Sentia que responderia ‘sim’ a todas as perguntas que aquela deusa fizesse.

Carol se aproximou, colocou uma das mãos em um toque suave do lado esquerdo da face de C4 e, no lado direito, deu um beijo com carinho. O coração dela batia efervescido, louco, devastador. Sentia-se como uma manteiga se derretendo naquele simples toque, quente. Muito quente. Pretendia deixar de bancar a boazinha, sem fazer mais charme e beijar a boca daquele homem, levando-o para qualquer lugar em que seus corpos pudessem comprovar a compatibilidade física, presente no faiscar daquelas peles, mas manteve o controle.

Ele fechou os olhos, instintivamente e sentiu o beijo como um pedido, talvez fosse o corpo dele, que há essa hora suplicava para que aquela simples aproximação se tornasse maior ou acabasse de uma vez, deixando de torturá-lo. Foram segundos, mas que segundos loucos, pensaria ele na manhã seguinte.

Afastando os lábios do rosto, gentilmente cedido, e concentrando-se em suas intenções, Carol continuou a investir.

-E uma foto? Posso tirar? – ela voltou a mostrar o ar de menina, suavizando seu olhar e investindo nos movimentos de seu corpo, o que Cabal não sabia se o deixava mais resistente a tentação ou mais vulnerável.

-Tudo bem, é que eu...

Ela aproximou seus dedos com delicadeza e rapidez até os lábios dele, encostando um pouco mais o corpo e deixando Cabal sem reação, pelo gesto inesperado. Seguiu falando o discurso que ensaiara tantas vezes, impedindo-o de contradizer ou respirar, fazendo com que apenas ouvisse o que ela tinha a dizer.

A voz saia baixa e sedutora, ao mesmo tempo forte e compassada, como se estivesse em um processo de hipnose. Cabal estava fora de controle nesse momento, não sabia o que fazer, nem queria fazer nada. Sentia que ela pretendia dominá-lo e isso o agradava muito. O aroma que exalava dela preenchia aquele pequeno espaço entre os dois e o deixava imobilizado. No outro dia ele recordaria esse momento pensando na cara de bobo que estava fazendo, ao ser dominado por aquele mulher. O mais interessante da cena era o tempo. Todas as coisas pareciam acontecer em câmera lenta, como se um jazz pausado estivesse tocando e o mundo estivesse estacionado, esperando que ela falasse, seja lá o que for, como nos filmes antigos que Carol adorava assistir.

Ela tem atitude, ela fala, ela manda

-Não. – ordenou - Você não vai me dizer que tem um compromisso ou que alguém te espera. E você não vai fazer isso porque é gentil, e porque eu ficaria furiosa em ter saído de tão longe para te ver e acabar escutando algo do tipo.

A sobrancelha dela estava arqueada, o braço dele envolvia a cintura moldada pelos deuses e o dedo indicador dela passeava pelo rosto firme e hipnotizado a sua frente. Os olhos estavam em uma vibração constante, em sintonia, reconhecendo-se de algum lugar, como se já tivessem se visto muitas vezes e se reencontrassem naquele momento.

-Eu realmente preciso ir, mas depois... – ele estava tentando recuperar o fôlego e não deixá-la com o mal estar de levar um fora por causa de uma reunião. Agora era a mão dele passeando pelo cabelo negro cacheado, que caia nos ombros sobre a roupa que brilhava. Ouvindo aquilo ela sorriu, e interrompeu o pensamento dele, que estava prestes a propor algo para o restante da noite.

-Sou uma garota completamente compreensiva e não quero estragar seus planos nessa noite, aliás, meus planos são outros também. – ela pretendia reencontrar o moreno sexy e fazer uma proposta indecente – Eu, realmente, só queria uma foto, isso pode esperar. – Carol falava com pontos de observação no rosto, os olhos fixos e ao final da fala abriu um sorriso de lado. – portanto, façamos um trato – agora ele passava as mãos nas costas dela, respondendo ao instinto, e ela segurava o queixo dele como se fosse um menino recebendo informações da mãe para ir ao colégio, mas com muito mais sensualidade, pausadamente, e extremamente sexy – você me promete que, a próxima vez que nos virmos, sua noite será minha e apenas minha. Só você e eu. Afinal, eu mereço ser compensada pelo esforço de horas e horas voando até aqui.

Ele riu e voltou a mexer nos cabelos dela. Sua fala estava presa na garganta e toda a sua facilidade em encontrar as palavras certas, foram embora inexplicavelmente. A verdade é que ele queria levá-la dali e fazer coisas que não necessitariam de frase alguma, apenas ação. Pensava em dizer que sim, concordando com a proposta de encontrá-la em outra noite, outro momento, menos conturbado, quando Joice se aproximou, pedindo desculpa por atrapalhar, mas lembrando que ele estava sendo esperado para uma rápida reunião no camarim. Carol olhou para trás, para observar quem era a moça, e ouviu educadamente que Cabal, se assim desejasse, poderia levar a acompanhante e deixá-la na sala ao lado enquanto faziam a reunião.

Cabal voltou a olhar para Carol, que também retomava a atenção para ele, inclinando a cabeça, à espera de uma resposta para a pergunta que havia lhe feito, antes de Joice chegar. Dessa vez a surpresa foi dela, ao perceber os lábios macios em sua boca, dando um beijo estalado e curto, como um beijo de sucinta despedida, que queria dizer “nos vemos em breve”, nada prazeroso, mas completamente carinhoso e fundamental para lhe cortar a respiração e deixar os olhos saltados.

-Eu aceito. – ele disse, percebendo que havia descompassado a garota despercebidamente e assumido o controle. Então, soltou-a, passando uma de suas mãos para a dela e a outra para o rosto de pele levemente morena e macia, acariciando-a – tenho que ir ma, me dá o seu telefone? – olhava-a fixamente, ele tinha um lindo sorriso de vitória nos lábios.

Ela estava muito nervosa o tempo todo, mas não transpareceu, ao menos não na maior parte. Nesse momento, não poderia se dar ao luxo de perder o controle. Olhou para ele com o mesmo sorriso sarcástico e com um olhar mortífero, soltou sua mão, colocou a outra sob o peito de C4 e aproximou os lábios do ouvido dele, dizendo-lhe no mesmo tom de sensualidade que vinha praticando:

-Não. Eu te encontro no próximo baile, quando não for o centro das atenções baby. – deu um beijo como o que ele havia dado em sua boca e saiu em disparada pela pista, deixando-o no vácuo.

O efeito do beijo rápido para Cabal, foi como se tivessem sido atingido por um furacão. O perfume, que ainda estava hipnotizando-o naquele ambiente, espalhou-se em uma leve brisa que chegava do movimento rápido da morena, exalando a deliciosa essência que ela possuía e inebriando aquele momento. Olhou para a amiga que ainda estava em sua frente, rindo dele com sutileza e esperando que Cabal mudasse a cara de bobão, formada assim que a garota saiu.

Não, aquela mulher não seria esquecida tão facilmente.

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